
“Os cortadores de pedra” (c. 1840) – Gustave Courbet. Quem não gostaria de livrar desta tarefa?
Introdução
Durante um encontro que tive com docentes e tutores de uma universidade federal, conversando a respeito da IA na Educação e especificamente os impactos sobre a realização de trabalhos e outras atividades avaliativas, uma professora disse algo marcante: o aluno somente quer “resolver a parada”.
Para todos nós, que já fomos estudantes, é algo familiar. E ainda mais compreensível com o atual ritmo de vida, marcado por um excesso de informação, pela luta da sobrevivência diária, horas perdidas no transporte urbano, entre outros desafios. Assim, por mais que nos preocupemos com autenticidade, esforço individual, originalidade, entre outros princípios nobres, a dinâmica da tecnologia – a nova e a não tão nova – resume-se a um pragmatismo orientado a resolver aquilo que se apresenta como um problema.
Ao mesmo tempo – e essa é uma situação reconhecida por quem cresceu junto a irmãos – qualquer tarefa doméstica tende a ser atribuída ao elo mais fraco da cadeia familiar. “Vai você”, pode ser utilizado para pegar água na geladeira ou qualquer outra atribuição, geralmente replicada por um “não, vai você”. Estas disputas infantis chegam ao dia de hoje na forma como delegamos tarefas que nós mesmos não queremos fazer, por serem de baixo valor ou simplesmente trabalhosas.
Finalmente, confesso que não consigo alcançar a total empatia com as pessoas que compram celulares “top de linha”, a valores de computadores de última geração utilizados para edição de vídeo, por exemplo. Sempre preferi modelos intermediários, de bom custo-benefício, que na prática diária entregam tanto quanto os “flagships”, com imperceptíveis diferenças de qualidade. Além do símbolo de status, a funcionalidade e a atenção às necessidades básicas de um celular “normal” se revelam num “pra mim está bom”. Utilizando uma terminologia da Economia, os benefícios marginais não justificam o custo adicional, em minha perspectiva idiosincrática.
Estas três atitudes, a meu ver, estão relacionadas e podem orientar o debate sobre IA na Educação para além de uma discussão sobre “plágio com IA”. Elas tratam de questões mais profundas: a potencial substituição de professores e a integração da tecnologia nos processos educacionais.
Tanto o “IA-pragmatismo”, como a delegação de tarefas e aceitação de resultados medianos moldam – em nossa percepção – a relação que estudantes, educadores e instituições vão estabelecer com a Inteligência Artificial. Compreendendo estas posturas, podemos desenvolver abordagens que busquem preservar a integridade acadêmica e que valorizem o papel de professoras e professores.
“Resolver a parada”: reconhecendo o pragmatismo de todos nós
No contexto educacional, a primeira atitude diante da IA reflete sua funcionalidade imediata: usar a tecnologia simplesmente para cumprir tarefas. Estudantes recorrem a ferramentas como ChatGPT para responder a testes, resolver listas de exercícios, produzir textos, gerar trabalhos de pesquisa. O objetivo, não nos iludamos, é a entrega daquilo que foi solicitado, não o processo de aprendizado em si.
Esta abordagem utilitária confronta diretamente a natureza da tarefa pedagógica. O objetivo educacional raramente é apenas o produto final, mas o desenvolvimento cognitivo que ocorre durante sua elaboração. Quando um estudante recorre ao “resolver a parada”, perde-se a oportunidade de construção de habilidades fundamentais como são análise crítica, síntese de informações e expressão autônoma de ideias.
O uso de IA em atividades avaliativas está em xeque, o que Ethan Mollick chamou de “Apocalipse da Tarefa de Casa”. Enquanto os professores designam essas atividades para desenvolver e mensurar competências e habilidades específicas, os alunos buscam maneiras de atender às expectativas com o menor esforço possível. Mesmo com a argumentação de que esse não é um fenômeno exclusivo – visto o “copia e cola” da geração Google – fica estabelecido um descompasso, um jogo de aparências no qual o produto final importa mais que o processo.

“O Lenhador” (1910) – Ferdinand Hodler. Missão dada é missão, cumprida, não importa como.
Ao mesmo tempo, professores e pesquisadores também não estão alheios à tentação de “resolver a parada”. Educadores pressionados por prazos e sobrecarregados com demandas administrativas recorrem à IA para gerar planos de aula, materiais didáticos e corrigir trabalhos. Pesquisadores utilizam a tecnologia para escrever e avaliar artigos científicos. Aqui, o produtivismo acadêmico é acompanhado por um risco de comprometimento da profundidade e originalidade da contribuições acadêmicas, num dilema ético não declarado.
Em conjunção, a atitude pragmática do “resolver a parada” levanta questões críticas sobre integridade acadêmica. O plágio, antes facilmente identificável, torna-se sofisticado e difícil de detectar. A linha entre utilizar a tecnologia como ferramenta auxiliar e o comportamento antiético torna-se cada vez mais tênue, desafiando instituições a repensarem seus sistemas avaliativos e seus valores fundamentais.
“Vai você”: terceirizando o trabalho intelectual
A segunda atitude frente à IA no contexto educacional manifesta-se como uma transferência de responsabilidade. Isto é, a possibilidade de delegarmos à máquina tarefas tradicionalmente humanas, ainda numa perspectiva pragmática.
Tal fenômeno nos leva a refletir sobre o conceito de tecnologia propriamente dito. Se originalmente as ferramentas ampliavam nossas capacidades, as IAs contemporâneas propõem uma substituição parcial ou completa da agência humana. A tecnologia deixa de ser extensão para tornar-se substituto.
A diferença reside neste ponto. Da substituição do trabalho manual (Revolução Industrial), para a substituição do trabalho intelectual repetitivo (Sociedade da Informação), neste momento a IA acena para a substituição do trabalho intelectual como um todo, incluindo o trabalho criativo. São funções intelectuais até agora consideradas exclusivamente humanas que estão em jogo. A questão fundamental é: o que podemos delegar, sem perder nossa essência?

“O Juramento dos Horácios” (1784) – Jacques-Louis David, o pai dos Horácios entrega a missão de lutar por Roma aos seus três filhos, que juram cumprir a tarefa.
Como elemento do discurso público sobre a IA na Educação, a tecnologia é vendida como uma ajuda ao professor, incluindo assumir as nada apreciadas tarefas burocráticas. Qual professor não gostaria que suas cadernetas de acompanhamento fossem magicamente preenchidas? Que coordenador de curso não gostaria de ver o horário resolvido? Tudo o que for repetitivo, “braçal”, torna-se objeto desta transferência de responsabilidade.
E nesta discussão entra um conceito bastante significativo, o de Tecnologia de Propósito Geral. O êxito dos modelos conversacionais de IA em diversos domínios mostram que elas não se limitam a um único âmbito de aplicação, mas apresentam versatilidade através de domínios de conhecimento e de aplicação. Dito de outra forma, não estão limitadas a tarefas como a análise de grandes conjuntos de dados, mas podem ser utilizadas no espectro criativo, como por exemplo no planejamento e desenvolvimento de recursos didáticos. Com isso, o potencial de que a gestão adote a postura do “vai você” aumenta consideravelmente.
“Pra mim tá bom”: balanceando qualidade e resultado
A terceira atitude diante da IA educacional reflete uma aceitação pragmática de resultados satisfatórios, ainda que imperfeitos. Quando estudantes, educadores ou instituições declaram que “pra mim tá bom”, estabelecem um limiar de qualidade aceitável. Por que gastar mais tempo e recursos num “a mais”, que não é percebido ou devidamente valorizado?
Esta postura revela o balanço entre qualidade e utilidade prática que a nova tecnologia traz consigo. Embora a IA falhe ao alcançar a qualidade que esperamos em muitos domínios da atividade humana – incluindo a escrita, frequentemente resultando em texto “chocho” – dependendo do uso ela pode ser aceitável.
Tomo um exemplo fora do cenário educacional, a utilização de voz sintética para a narração de documentários, assunto que suscitou polêmica. Ao contrário de obras dramáticas, na qual a interpretação é um diferencial, para programas mais informativos uma voz “não tão humana” pode ser o suficiente. Cumpre sua função informativa, “pra mim tá bom”.
Agora, o conceito de “bom”, por sua própria definição, é subjetivo. Bom para quem? Em que circunstâncias? Com quais objetivos?
Nesse sentido, muitos trabalhos produzidos completamente pela IA, uma vez depurados seus aspectos mais chamativos como é a adjetivação, podem resultar em bons os suficientes para serem avaliados pelos professores. Sem mais perguntas, sem questionamentos.
De forma associada ao “vai você”, muitas vezes o texto que precisamos é puramente funcional, informativo, descritivo. Não aspira à criatividade e originalidade de uma produção artística. Bastam com ter estrutura adequada e argumentos coerentes, como pode ser, por exemplo, um relatório de uma visita ou encontro científico.
Aqui, a lâmina corta nos dois sentidos. Correções automatizadas de avaliações e mesmo a elaboração de materiais didáticos de forma automatizada podem ser considerados suficientemente “bons” por equipes de gestão buscando reduzir o papel e o custo da agência humana. A substituição do trabalho docente pelo automatizado e maquínico assume um risco real, especialmente num contexto de corte de gastos.
E assim como os consumidores da indústria da informação podem aceitar um certo nível de qualidade, no âmbito educacional muitas instituições também vão “tirar por menos”, nessa perspectiva. Basta olhar para as crescentes matrículas nos cursos de Educação a Distância, seguindo modelos altamente automatizados, com baixíssimos coeficientes na proporção docente-aluno. Se nestas abordagens as atividades – provas e testes – já carecem de qualidade quando são desenvolvidas por equipes de professores e designers instrucionais, por que a IA não teria seu lugar?
Como no filme “Clube da Luta” (1999), tudo se volta a uma equação, a um cálculo marcado de racionalismo econômico. Se o número de alunos-clientes que toleram tal modelo pedagógico proporcionam retorno econômico, ele será mantido. Seria necessário uma queda no número de matrículas e um aumento da evasão, para que o “pra mim tá bom” se tornasse um risco ou condição de negócio inaceitável.

Do roteiro: Você pega o número de veículos em circulação (A) e multiplica pela taxa provável de falha (B), multiplica o resultado pelo valor médio de um acordo extrajudicial (C). A vezes B vezes C é igual a X. Se X for menor que o custo de um recall, nós não fazemos um. Quando é mais econômico pagar os custos de um acidente do que evitá-lo.
De certa forma, a aceitação generalizada dos conteúdos e interações mediadas pela IA já refletem um posicionamento de desigualdade no âmbito educacional. Enquanto muitas instituições buscam pela excelência e satisfação, também vemos o cumprimento de metas mínimas e do alcance superficial dos indicadores que as avaliações sistêmicas pedem. Com isso, o uso indiscriminado da IA pode levar a uma continuidade, ou mesmo aprofundamento, das oportunidades educacionais.
Em síntese: navegando entre pragmatismo, delegação e a busca da satisfação
As três atitudes analisadas representam diferentes camadas de relacionamento com a IA no contexto educacional. O pragmatismo de “resolver a parada” atende necessidades imediatas, mas compromete o processo de aprendizagem. A delegação do “vai você” transfere responsabilidades cognitivas às máquinas, alterando papéis tradicionais. O cálculo de satisfação do “pra mim tá bom” estabelece limiares de qualidade que podem rebaixar padrões educacionais.
Estas posturas coexistem e se manifestam em diferentes intensidades, conforme contextos específicos. Um educador pode rejeitar o uso de IA em avaliações enquanto a emprega para tarefas administrativas. Um estudante pode alternar entre uma utilização consciente e ética ao planejar um texto e a delegação completa de um trabalho feito.
Penso que nosso desafio institucional não é eliminar estas atitudes, mas reconhecê-las como comportamentos naturais frente à inovação tecnológica. Precisamos pensar em normas e ações que reconheçam essas tendências, buscando estabelecer limites apropriados que preservem a integridade acadêmica sem abrir mão do potencial das novas ferramentas.